A perspectiva de sobreviver em um mundo onde não se pode abrir os olhos é por si só, assustadora.
O livro "Caixa de pássaros" do autor americano Josh Malerman, nos inunda com um sentimento aterrador e nauseante a cada página lida, trazendo através de sua narrativa - que alterna passado e presente - a constante ameaça das criaturas que forçam a personagem principal, Malorie, a permanecer trancada dentro da própria casa, tendo que sair somente de olhos vendados.
Malorie, nossa heroína, consegue sobreviver aos ataques de supostas criaturas que, antes de chegar a península inferior do Michigan - onde mora, se espalham de maneira endêmica e voraz pelos quatro cantos do planeta. Teoricamente, a simples visão destas criaturas, geraria nos seres humanos um tipo de insanidade aguda, que os levava ao suicídio.
Toda a família de Malorie - os pais e a irmã Shannon - sucumbem, mas um lampejo de motivação surge quando ela descobre estar grávida, após uma noite de descuido com um rapaz qualquer.
A partir daí, a gravidez conduz as ações de Malorie num instinto de auto-preservação que a leva a buscar, e encontrar, ajuda e abrigo . Ela reúne toda sua coragem e sai ao encontro de Tom e sua trupe, que estão isolados em uma casa, tentando entender o novo mundo que surgia e driblar as dificuldades que as mortes em massa geravam: falta de abastecimento de água, alimentos e itens básicos de sobrevivência.
Muitas coisas acontecem a partir de então, e Malorie, após alguns anos do nascimento dos filhos (sim são duas crianças, um menino e uma menina) resolve vendar os olhos, subir num pequeno barco a remo com os meninos e descer o rio que margeia os fundos da casa compartilhada - mas essa aventura exige que toda família siga de olhos vendados.
As crianças, muito bem treinadas a ouvir e identificar todo tipo de som, desde pequenas, conduzem a mãe ao longo de um trajeto árduo e cheio de desafios que surgem diante deles.
É admirável a força de caráter desta mãe, que valentemente parte em busca de um mundo melhor para os filhos, e é incrível como ela aposta todas suas fichas neles - crianças tão obedientes e resignadas mediante a rigidez da mãe:
- Não abram os olhos, em hipótese alguma! - ordenava Malorie as crianças.
Remar de olhos vendados, em busca de um lugar melhor, onde nos sintamos mais seguros. Parece uma paródia da vida atual, num planeta onde seguimos cegos, vacilantes em meio aos desafios que surgem no caminho, mas sempre guiados pela voz da consciência, constantemente treinada para a evolução, a obediência aos bons preceitos da vida.
Mas aonde isso vai nos levar?
Não sabemos. Apenas acreditamos que o mérito das boas atitudes nos conduzirá a um local onde enfim, nos sentiremos acolhidos e seguros.
Muitas perguntas surgem ao longo da leitura, como por exemplo: o que são essas criaturas?
Por que elas causam essas reações nos humanos, qual o mecanismo disso?
Mas, adianto que a resposta vai ficar por conta da imaginação de cada um.
Confesso que essa leitura me agradou muito, sobretudo porque foi uma ótima companhia em minhas viagens semanais.
Me fez refletir e desejar um mundo melhor, onde não haja espaço para Apocalipses suicidas. Então...
Boa leitura e, cuidado ao abrir os olhos!!!


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